Blog

Dizer Não

“Dizer sim quando quero dizer não é dar mais valor aos outros do que a mim, é não colocar meus limites, e isso é não me respeitar… É o mesmo que dizer que o que eu sinto não vale nada, que os outros podem passar por cima de mim à vontade. E eles passam, sem dó nem piedade. Hoje estou aprendendo a dizer não. Quando não quero alguma coisa, simplesmente digo não. Sem raiva nem emoção. Um não é só uma negativa. É nosso limite. Um direito que temos. A isso se dá o nome de dignidade. Quando nos colocamos com sinceridade, dizendo o que sentimos, somos respeitados” (Zíbia Gasparetto).

Às vezes podemos nos perguntar o porquê que alguns comportamentos dos quais desejamos modificar continuam fazendo parte de nossa vida, mesmo que isso nos traga angústias e “sentimentos negativos”. Podemos concordar: como é difícil mudar qualquer conduta em nós mesmos. Esse é um dos dilemas que a Psicologia se debruça na tentativa de ajudar pessoas a buscarem uma melhor qualidade de vida.

Poderíamos dizer que viver na “correria do dia-dia” é uma escolha, mas essa escolha muitas vezes se faz necessária diante do que planejamos para nossa vida. Ok, não vou entrar naquele discurso “politicamente correto” que coloca os anseios da sociedade fora de nossas ações. Seria fácil repetir o que muitos já dizem: “Na sociedade de hoje, há uma maior preocupação em TER em detrimento do SER”. Ok, mas não podemos esquecer que fazemos parte dessa sociedade e falar sobre ela é também falar sobre nós (eu, você, seu vizinho, etc.). Então, se você se coloca nesse modus operandi é porque o valoriza também, mesmo que de uma forma não consciente. Nada contra se você está na “correria” em busca de seus sonhos, pelo contrário, acho que temos que correr atrás deles mesmo. Todavia, é bom se questionar quando foi que “parou” para pensar como seus projetos podem ser realizados de uma maneira mais saudável e se o fato de não colocar alguns limites não atrapalha suas realizações.

O medo e a culpa muitas vezes são os ingredientes mais presentes dos processos que inibem as mudanças de qualquer um dos nossos padrões de conduta. Outro fato se dá pela ânsia de sermos “amados, cuidados, admirados” pelos os que nos cercam. Isso massageia o nosso “Ego”. Mas quando percebemos que por causa desses fatores ou de outros pertinentes ao caso, não conseguimos dizer “NÃO”, mesmo desejando isso, algo precisa ser feito. Quem já não passou pela situação em que você está atrasado, cheio de coisas para fazer, e um colega pede uma carona que vai na contramão de seu percurso. Ou mesmo quando um amigo te pede algo emprestado (dinheiro ou algum equipamento do qual você não queira emprestar) E ai? O que fazer? Dizer “SIM”, mostrará sua preocupação com o outro ao mesmo tempo que ele ficará satisfeito com sua ação e passará a gostar mais de você… será? Se digo que “NÃO”, ele com certeza não entenderá, pois só existe a mim para ajudá-lo e dizer “NÃO” será condená-lo a um absoluto desprezo… será? Com esses exemplos quero mostrar duas formas de “interpretar” as situações que são paradoxalmente distintas e extremas. Lembro que precisamos buscar um EQUILÍBRIO em nossas ações, na maneira de avaliar e sentir os fatos. Deste modo, você pode dizer “Sim” ou “Não” sem necessariamente ter que avaliar o evento de forma “extrema”, tudo ou nada.

É válido refletir a importância de saber onde focar o seu tempo e é nesse sentido que saber dizer “não” se torna uma habilidade essencial. Quem não sabe para onde vai, acaba chegando em outro lugar. Nesse sentido, quem não sabe dizer “NÃO” muitas vezes acaba gastando seu tempo e energia nas prioridades de outras pessoas, enquanto suas próprias prioridades ficam comprometidas.

Ok, isso está claro, mas então, o que fazer?

Quando as pessoas te fazem pedidos:

* Ou elas confiam em você e acreditam na sua capacidade * Ou você é a única opção conveniente ou viável no momento.

Ok, se a segunda afirmativa for correta, já se perguntou o motivo pelo qual você é “a única pessoa viável?” Vai ver que você se preocupa com os outros e por isso se coloca disponível (mesmo que de forma não consciente), e isso não é ruim. Contudo, como consequência da primeira ou segunda opção, um “SIM” não é a única forma de resolver o dilema. Caso você tenha convicção da importância do “NÃO” (primeiramente para você), essa negativa poderá ser dada de uma forma impessoal. Ou seja, você gosta e respeita a pessoa, a forma como você expressará seu “NÃO” ajudará na interpretação de que não se trata de algo pessoal.

A forma como a negativa é expressa torna-se essencial para que os outros possam entendê-la de maneira clara e mais próxima do seu sentido. Os detalhes relativos à sua razão para dizer “não” podem fazer pouca diferença, mas o motivo do “NÃO” pode deixar seu posicionamento sem maiores problemas. Talvez você esteja muito ocupado. Talvez você não sinta que seja algo com o qual possa ajudar. Seja honesto sobre o motivo de sua negativa.

É sempre válido refletir que algumas pessoas não têm “SIMANCOL®” (essa palavra não existe em nosso vocabulário)” e mesmo você explicando, elas não desistirão facilmente ou mesmo ficarão chateadas. Contudo, quanto mais “seguro(a)” de si você estiver, menos difícil será dizer “NÃO”. Entender que o outro também precisa lidar com suas frustrações é primordial. Você não é o “salvador da pátria” e nem tudo gira em torno de você, lembre-se disso. Outro fato importante é que “você é responsável pelo que diz e não pelo que os outros interpretam”, pois as vezes, por mais que tenhas cuidado na forma de dizer “NÃO” as pessoas interpretarão da forma delas, baseadas na história de vida delas, e pode ter certeza, disso você não terá como dar conta.

Você é capaz de realizar uma avaliação do que é melhor para você, e isso não quer dizer que terá que se tornar uma pessoa individualista, solitária e/ou egoísta. Esteja bem consigo mesmo, pratique a “autorreflexão”, se questione, entenda suas limitações, assim você poderá realizar suas escolhas de forma mais tranquila e menos danosa para sua vida. Lembro que ter equilíbrio NÃO é pensar SÓ EM VOCÊ, ter equilíbrio é saber que você precisa estar bem para ajudar os outros. Dizer “NÃO” é realizar escolhas, então esteja preparado(a) para perder. Comumente não conseguimos lidar bem com perdas, e muitas vezes daí surge nossa dificuldade. Se tenho “A” e “B” e preciso escolher, não é raro buscarmos um “meio termo” que possamos ter “A e B” ao mesmo tempo, assim não saímos perdendo. Pois é, mas nem sempre isso é possível. O comum seria: Se escolho “A” eu perco “B” e virce-versa. Nesse sentido, saber lidar com perdas é essencial para que efetuemos nossas escolhas de forma mais segura. Dizer “NÃO” para alguém ou para alguma situação faz parte da vida e muitas vezes é necessário, esteja atento(a) para isso. Se as dificuldades persistirem procure ajuda.

Paulo de Tarso Melo
Psicólogo – CRP: 02/13928
Mestre e Doutorando em Psicologia Clínica – Unicap
ASSISTA – Assessoria e Assistência Terapêutica 
Diretor Clínico – 81.3241.3141 / 3426.6330

O que você achou desta publicação?